sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Educação: as agruras de ser menina

Por Carol Nunes

Campanha chama a atenção para a exclusão de gênero que atinge meninas do mundo inteiro
 
No mundo, há 34 milhões de meninas de 6 a 14 anos fora da escola, sendo que dessas, 17 milhões não têm sequer expectativas de estudar. Uma das concorrentes ao Nobel da Paz de 2013 era Malala Yousafzai, paquistanesa que sobreviveu ao ataque de um grupo Talibã em ofensiva à sua luta pelo acesso à Educação das meninas de seu país.
 
O Brasil, apesar de ter uma carta de leis exclusiva para assegurar os direitos de crianças e adolescentes e um número crescente de crianças na escola, enfrenta dificuldades em quebrar o ciclo da pobreza associado ao gênero feminino.
 
Para chamar a atenção sobre a fragilidade social de garotas entre 6 e 14 anos, a Plan International Brasil lançou o vídeo da campanha Por Ser Menina, como parte da celebração do Dia Internacional da Menina, estabelecido pela ONU em 2012.
 
 
A peça mostra de forma lúdica as diferenças entre os anseios de desenvolvimento de uma garota pobre e as dificuldades encontradas por ela ao ter seus direitos negados.
 
Promover a Educação de mulheres é um dos investimentos mais poderosos para desenvolvimento social, de acordo com a Plan International. Segundo Anette Trompeter, gerente geral da organização, cada ano a mais na escola representa de 15 a 20% a mais na renda da mulher.
 
Esse aumento da renda se reflete automaticamente no bem-estar familiar: “enquanto os homens investem cerca de 30% da renda na família e na comunidade, as mulheres colocam 90%, acabando com o ciclo da pobreza, inclusive dos seus próprios filhos”.
 
Trabalho doméstico e estagnação social
A frequência escolar, no entanto, não tem tanto poder de transformação se não há qualidade de ensino nem foco no estudo. Anette destaca que essa é a principal consequência do trabalho infantil doméstico, que retira boa parte do tempo que deveria ser dedicado ao estudo e à brincadeira.
 
Em muitos casos, o trabalho infantil doméstico evolui como forma de renda, mas por não ter conseguido se qualificar, a garota tem menos perspectivas de evolução no mercado de trabalho.
 
A não-priorização da escolaridade por conta do trabalho doméstico gira a engrenagem da pobreza intergeracional: “as filhas das mulheres provavelmente vão estudar menos porque a mãe que sempre foi trabalhadora doméstica entende que isso não é tão importante assim”, explica Anette.
 
Pesquisa divulgada pela Plan International, com mais de mil meninas em 5 estados brasileiros, aponta que 76,8% das meninas entrevistadas lavam a louça em casa, enquanto apenas 12,5% dos meninos fazem a mesma tarefa. No cuidado com a família, o desequilíbrio se mantém: as mães são o ente familiar que mais cuida da família (76%).
 
Essa desigualdade perpetua a percepção de que o cuidado com o lar é uma responsabilidade essencialmente feminina que deve, portanto, ser retransmitida às meninas desde cedo. “Enquanto o menino chega da escola e vai brincar, a menina vai cuidar da casa” – exemplifica Anette – “esse ciclo não deve ser culturalmente aceito”.
 
Educação de qualidade
A Educação de qualidade é outro turning point para o desenvolvimento social desse grupo. Os principais motivos de evasão escolar de garotas são o casamento ou união informal e a gravidez na adolescência. Para quebrar esse ciclo, é necessário investir no acesso a informações sobre direitos sexuais e reprodutivos. “O que conseguimos ver claramente em nossos projetos é que os jovens, quando expostos a essas informações, passam a ter consciência, por exemplo, de que a gravidez pode ser uma grande ruptura no crescimento pessoal”, declara Anette.
 
Meninas com acesso à Educação de qualidade têm não só mais chances de alcançar os objetivos pessoais e profissionais, mas também confiança para lutar por seus próprios direitos. Esse empoderamento é essencial para o combate à violência doméstica.
 
Entre as entrevistadas pela pesquisa, 57,3% acreditam que “meninas sofram mais violência por serem meninas” e 20% conhecem alguma menina que já sofreu violência. “Esses dados confirmam que as violências de gênero são agravadas pelo desconhecimento de seus direitos.
 
Para compreender, por exemplo, uma violência verbal ou entender que o trabalha doméstico não é tarefa só de meninas, mas de ambos os sexos, as meninas primeiro precisam entender que aquilo não é uma condição natural apenas por elas serem meninas”, afirma Célia Bonilha, assessora de Gênero e Segurança Econômica da Plan.
 
Fonte Página 22

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