sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Design Brasil 1: Bienal debate diversidade e desenvolvimento econômico

Desde uma pequena colher de chá até uma aeronave de última geração, o design está presente e é o grande responsável por dar identidade e caracterização aos objetos produzidos pelo homem. No Brasil, o design, uma atividade cujos limites de atuação são quase irrestritos, começa a se profissionalizar e assumir suas próprias características.

Com o tema “Diversidade Brasileira”, a IV Bienal Brasileira de Design, que acontece pela primeira vez em Belo Horizonte, coloca em evidência até 31 de outubro, o design produzido em Minas e do país. Além disso, estimulará o debate sobre a geração de ideias e conhecimento, a inserção do design na indústria e a profissionalização da profissão.


Para o reitor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e coordenador geral local da IV Bienal Brasileira de Design, Dijon Moraes Júnior, o estímulo é muito bem-vindo. Segundo ele, o tema começou a ganhar força e a se profissionalizar no Brasil há cerca de 15 anos e, hoje, o país já é um “fenômeno” no assunto. “Perdemos apenas para a China e os Estados Unidos no número de cursos de design: hoje, são 530 cursos em todo o país. Isso quer dizer que o tema está ganhando cada vez mais importância e que a procura está aumentando”, ele afirma.

Segundo o reitor da UEMG, o design é também um grande aliado do desenvolvimento econômico, por seu potencial de agregar valor a produtos locais. Neste aspecto, ele diz esperar que a IV Bienal Brasileira de Design, que terá mostras em diversos pontos da capital mineira, seja uma oportunidade de conscientizar os empreendedores sobre a importância deste ofício. “O design é uma atividade que possibilita o alto empreendimento e gera amplas possibilidades. Queremos aproximar o designer do produtor industrial”, explica.

Doutor em Pesquisa em Design pela Universidade Politécnico de Milão, autor de vários livros, contemplado três vezes com o prêmio Museu da Casa Brasileira e premiado também no exterior, Dijon Moraes concedeu com exclusividade a seguinte entrevista para a Agência Minas:

Esta é a quarta bienal brasileira de design. Como se deu a escolha de Minas para esta edição?
É a primeira vez que a bienal ocorre em Minas Gerais. A primeira bienal de design, em 2006, aconteceu em São Paulo. A segunda, em 2008, em Brasília, e a terceira, em 2010, em Curitiba. Há dois anos, portanto, o Estado de Minas Gerais se candidatou para realizar a edição de 2012 do evento e venceu. Acredito que isso tenha ocorrido por Minas ser a terceira maior economia do Brasil, uma região estratégica, com espaços adequados e apoio em massa do governo e dos parceiros envolvidos.

O tema deste ano da Bienal é “Diversidade Brasileira”. Por que esta escolha?
Confesso que fiquei muito feliz com este tema. Sempre houve uma grande busca pela identidade do design brasileiro. Depois de muitas reflexões e amadurecimento, chegou-se à conclusão de que a riqueza do design do nosso país não estava em uma única identidade, mas em sua diversidade. A diversidade brasileira é uma marca do nosso design, da nossa identidade em diversos segmentos da indústria e da produção. E isto é um fator positivo, que enaltece a produção de design no país.

Desta diversidade, quais matizes você destaca como sendo particularidades do design brasileiro?
O design brasileiro, ao contrário do que vemos em alguns países mais tradicionais, não tem nenhuma tradição do passado. Ele é um design livre para o futuro, para se inventar. Em algumas culturas, o design é muito rígido em termos de estética, de forma. Mas no Brasil, temos a leveza, a suavidade, que é encontrada em obras como as curvas de Niemeyer por exemplo. Temos uma abundância de cores e volumes e exploramos isso sem culpa. É um design colorido, despojado, que tem alegria, frescor e suavidade, características que você encontra em qualquer lugar do Brasil. Na IV Bienal, é possível identificar esta particularidade em mostras que vão desde automóveis a jóias e acessórios. E cada uma dessas peças tem esta brasilidade, que é a nossa riqueza e nosso diferencial hoje no mercado global.

De onde veio a inspiração para a principal mostra da Bienal, intitulada “Da Mão à Máquina”?
Esta mostra foi concebida pela curadora da Bienal, Maria Helena Estrada. Ela propõe mostrar que a riqueza da diversidade brasileira vai desde o artesanato até a produção industrial, da mais alta tecnologia. E isso diz muito sobre o Brasil, sobre as realidades distintas do nosso país, que o design reflete e aproveita. Desta criatividade que vai do produto mais básico ao mais sofisticado.

Como a iniciativa da Bienal estimula o fazer artístico e a produção do design em Minas e no Brasil?
Esperamos que a Bienal deixe suas marcas em Minas. Queremos que ela se torne um fator de estímulo para a consolidação da inserção do design no parque produtivo mineiro. Porque tanto em Minas quanto no Brasil, o design ainda não está consolidado; ele não é empregado de forma concisa em todas as empresas. Algumas aplicam, outras não. Um evento deste porte, com várias mostras e atividades, faz com que as pessoas vejam de perto, respirem design. Vamos mostrar cases de sucesso ao empresário e ao consumidor, para que eles vejam o tamanho do diferencial que o design agrega a um produto.

Como o senhor, como um especialista nesta área, avalia o posicionamento do design mineiro e do brasileiro hoje, no Brasil e no mundo?
É um tema muito recente. O design brasileiro começou a aparecer de forma mais concreta, como uma atividade passível de produção em série e exportação, de apenas 15 anos pra cá. Por isso, ainda existe uma lacuna muito grande entre as escolas, os designers e as empresas. Esta lacuna está começando a se reduzir agora e esperamos que a Bienal seja um estímulo para reduzir estas distâncias.

A programação da Bienal dedica algumas ações voltadas também aos próprios designers e estudantes de design. Qual a importância da profissionalização desta atividade?
Esta é uma grande novidade. Pela primeira vez, atividades acadêmicas aparecem como destaque na programação da Bienal. Juntamos a universidade com o parque produtor. Teremos encontros com presença de designers internacionais, incluindo um grande fórum no Auditório da Escola Guignard com palestrantes de oito países. Isso é importante, pois aproxima o designer das empresas, democratiza o assunto e contribui para a qualidade do trabalho. O design é transversal, passa por diversas áreas do conhecimento, e por isso exige muito estudo e preparo.


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