quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Resgate da cidadania: Senai-MT e Fundação Uniselva qualificam egressos de trabalho degradante

Uma parceria entre o Senai de Mato Grosso e a Fundação Uniselva, vinculada à Universidade Federal do estado (UFMT), possibilitou no final do ano passado a qualificação de 25 egressos do trabalho degradante e/ou em situação de vulnerabilidade econômica. Eles são moradores da comunidade rural Jangada Roncador, em Chapada dos Guimarães, onde há aproximadamente 300 famílias que vivem da agricultura de subsistência. O programa forma jovens e adultos no curso de pedreiro.

Os estudantes foram resgatados na região pela Superintendência Regional do Trabalho (SRTE). A oferta do curso é operacionalizada pela Escola Senai da Construção, de Cuiabá, que conta ainda com parceria do Ministério Público do Trabalho. "Promover a capacitação profissional para estas pessoas é muito importante para que elas tenham uma profissão e reais oportunidades de entrar no mercado de trabalho amparadas pela lei. Assim, também contribuímos para evitar que retornem à condição de vulnerabilidade social ou que sejam novamente vítimas de exploração da mão de obra", destaca o gerente da Escola da Construção, Nilson Luiz da Silva.

O trabalho de capacitação é feito com o uso de kits didáticos do programa Senai Itinerante. As aulas foram realizadas na Associação de Moradores, que ofereceu jantar aos alunos. Além desta turma, a Escola da Construção também qualificou outros 17 alunos egressos do trabalho degradante, moradores de varais localidades, que foram encaminhados pela SRTE para estudar nas instalações do Senai. A mesma parceria envolveu em 2011 a capacitação de 50 trabalhadores na mesma condição, em Rosário Oeste, como pintores, pedreiros ou armador de ferragem.

Esse grupo de 17 alunos (foto) recebeu certificados de conclusão no curso de alvenaria predial graças ao programa Qualificação-Ação Integrada, da SRTE. Como complemento, eles recebem treinamento sobre primeiros socorros e prevenção e combate a incêndio urbano, oferecido pelo Corpo de Bombeiros. O programa busca devolver a cidadania aos trabalhadores resgatados pelas equipes de fiscalização que eram submetidos a condições análogas à escravidão ou em situação de vulnerabilidade social, encontrados em diversas regiões do Estado. Eles ainda são atendidos por assistentes sociais, psicólogos e passam por abordagem socioprofissional.


Daniel Morais Ferreira, de 27 anos, que trabalhou em carvoarias na região Norte de Mato Grosso, relata as situações de exploração que viveu, em locais sem condições dignas de moradia e higiene e alimentação precárias. Do antigo emprego, ele só tem boas recordações das amizades que cultivou. “A gente era proibido de sair da fazenda. Quando a equipe de fiscalização aparecia, todo mundo se escondia no mato. Chegamos a ficar por três dias escondidos, comendo só caça.” Os trabalhadores também eram proibidos de sair do esconderijo, coagidos pelo gerente da fazenda. “Ele ficava com revólver na cintura ameaçando a gente. Um colega que reclamou e quis ir embora nunca mais foi encontrado”, relembra.

Agora, com a conclusão do curso, a vida começa a mudar para estes trabalhadores: Daniel já tem três propostas de emprego na área de construção civil. “Vou sair daqui e levar ainda hoje minha carteira para ser assinada. Quero deixar este lado triste da minha vida pra trás. O canteiro de obras é um recomeço para mim; pretendo fazer outros cursos e progredir cada vez mais na profissão.”

Geraldo Rodrigues Neto, que começou a trabalhar aos 10 anos de idade, conta que já fez de tudo um pouco e passou muito trabalho na vida. Hoje, com 45 anos, ele agradece pela oportunidade de qualificação profissional e diz que já tem planos para o futuro. “Eu nunca imaginei em fazer um curso como esse. Agradeço ao Senai e ao projeto pelo apoio; tudo isso trouxe esperança de vencer tanto pra mim quanto para meus companheiros. Agora tenho objetivo de conquistar mais coisas, construir uma família, o que nunca tive.”

Todos os trabalhadores beneficiados pelo projeto ganham transporte intermunicipal, translado para o curso, alimentação completa, ajuda de custo, hospedagem e palestras educativas nas áreas de cidadania e ética, direitos e deveres trabalhistas, higiene pessoal e relações interpessoais. Eles também são encaminhados para a confecção de documentos pessoais e abertura de conta corrente.

O projeto Qualificação-Ação Integrada é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Ministério Público do Trabalho e Centro de Pastoral para Migrantes. De 2009 a 2011, o programa qualificou 302 trabalhadores egressos do trabalho escravo ou em situação de vulnerabilidade social em cursos como pedreiro, pintor, eletricista, operador de máquina agrícola e corte e costura. O projeto tem como proposta reintegrar o trabalhador a sua vida social, proporcionando elevação educacional, qualificação profissional e inserção destes trabalhadores na sociedade.
Fonte Assessoria de Imprensa da SRTE/MT – Foto Divulgação

A vez dos quilombolas 
A cidadania também chegou para mais 400 quilombolas qualificados pelo Senai de Mato Grosso nos últimos dois anos. Moradores das comunidades rurais de Poconé e Nossa Senhora do Livramento, ambos municípios da baixada cuiabana, eles foram capacitados por meio do projeto Senai Itinerante. Ônibus-escola e kits didáticos estiveram nas localidades para levar gratuitamente cursos nas áreas de tecnologia da informação e da construção, beneficiando homens, mulheres, jovens, adultos e idosos.

"É um sonho realizado. Graças ao Senai eu tive oportunidade de estudar aqui na comunidade, pois é muito difícil sair para ter acesso à qualificação. Muita gente tem que ir até Cuiabá ou a Poconé, e pagar caro pelo curso de informática", destaca Eva Felicidade de Pinho, de 46 anos.
Outra vez, coube à Escola Senai da Construção a tarefa de ministrar os cursos. "É gratificante realizar este trabalho com as comunidades quilombolas, pois, além de serem muito comprometidos, são pessoas que realmente precisam de qualificação disponível onde moram. Para eles, fazer um curso do Senai é uma experiência única, uma chance que eles abraçam como oportunidade de vida", ressalta o gerente da escola, Nilson Luiz da Silva.

A última formatura nos quilombolas ocorreu em Chumbo, em dezembro passado, quando 72 pessoas receberam os certificados de conclusão do curso Operador de Microcomputador. "Agradecemos muito ao Senai pela oportunidade, pois agora estamos mais otimistas, acreditando que temos mais chances de conseguir empregos melhores", conta Eleny Rosa, de 39 anos. É o que diz também Lenelice Maria Santos, de 31 anos. "Todo emprego hoje em dia pede conhecimento em informática. Para mim foi tudo novo, achava quem nem conseguiria aprender, mas vi que não é um bicho de sete cabeças.”

Eleny, que é vice-presidente da Comissão Quilombola de Chumbo e estudante de pedagogia, explica que antes do curso dependia da ajuda dos colegas para fazer os trabalhos da faculdade a distância. "Eu não tinha conhecimento algum, me ajudou muito, hoje não preciso mais que meus amigos digitem os trabalhos para mim". Ela destaca também que o acesso à qualificação dentro da comunidade sempre foi uma das lutas da população, pois o histórico dos moradores é o de deslocar-se até Poconé ou Cuiabá para buscar formação profissional.

E justamente para superar esta dificuldade de acesso que o Senai Itinerante atua em comunidades onde não há unidades fixas da organização. "Visitamos as lideranças comunitárias, verificamos as demandas por qualificação. É importante conhecer o local para atender às necessidades locais, e também para saber como é a realidade da região e definirmos a logística da oferta do curso, que inclui a disponibilização das unidades móveis e de professores, por exemplo", explica o coordenador do projeto na Escola da Construção, Luiz Marcos Cândido.

Este trabalho é realizado por meio do Programa Senai de Ações Inclusivas (Psai), cujo objetivo é promover a universalização do acesso à educação profissional, contribuindo para ampliar as oportunidades no mercado de trabalho às pessoas com deficiência, superdotados, de baixa-renda ou a grupos que sofrem vulnerabilidade, exclusão social, ou preconceito.

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