terça-feira, 1 de novembro de 2011

Do O Estado de S. Paulo: Façanha do Senai

As vitórias esportivas internacionais do Brasil costumam ser comemoradas com estrépito. Já não é o mesmo com as conquistas do País nos campos científico e educacional, que, até por serem raras, mereciam maior celebração. Este é o caso do grupo de 28 alunos do Senai que obteve o segundo lugar no disputado torneio WorldSkills International, realizado em Londres neste mês, com a participação de 944 competidores de 51 países, no qual os brasileiros ficaram atrás apenas da Coreia do Sul, superando, entre outras, as equipes do Japão, Suíça, Alemanha, França e EUA.

O feito é particularmente relevante em uma fase em que o Brasil se ressente da falta de mão de obra especializada para sustentar o seu crescimento, evidenciando quanto o País pode avançar em termos de capital humano, se elevar a qualidade do ensino e abrir mais oportunidades para os jovens de todas as classes sociais. Os resultados comprovam também a excelência do ensino profissionalizante proporcionado pelo chamado Sistema S, que pode e deve ser ampliado.

No mais importante torneio internacional de capacitação profissional, realizado a cada dois anos, em diferentes cidades do mundo, os jovens brasileiros participantes, procedentes de vários Estados, repetiram a conquista de 2007 e garantiram sua classificação pelo somatório das medalhas de ouro (seis), de prata (três) e de bronze (duas), além de dez certificados de excelência, o que os coloca entre os mais bem preparados do mundo.

Como destacou o professor José Pastore, em artigo no Estado de terça-feira (25/10) (N.R. leia o artigo no post abaixo), já vão longe os tempos em que as famílias rejeitavam certas profissões por serem de "mãos sujas", uma concepção ultrapassada em vista da demanda crescente em todo o mundo de profissionais especializados em setores como desenho mecânico, eletrônica industrial, mecânica de refrigeração, mecatrônica, web design e joalheria, para mencionar apenas as especialidades em que os alunos do Senai mais se destacaram.

E é justamente em áreas técnicas, como estas, onde está a melhor oferta de empregos. "Numa pesquisa feita em junho de 2011 pela União Europeia", relata Pastore, "71% dos entrevistados indicaram que as escolas profissionais desfrutam de uma imagem altamente positiva. Cerca de 80% consideram o ensino técnico como absolutamente necessário para as empresas e para as pessoas, que, com ele, passam a ter melhores oportunidades de trabalho."

Executivos de companhias nacionais e internacionais têm-se queixado muitas vezes não só dá escassez de engenheiros, pesquisadores e especialistas de alto nível para que possam tocar novos projetos no Brasil. Eles constatam uma falta ainda mais aguda de "tecnólogos", como designam os profissionais de nível médio, capazes de fazer a ponte entre as equipes de gestão e o chão da fábrica, de encarregar-se de trabalhos que exigem perícia e precisão ou de pessoas habilitadas a atender diretamente o público na prestação de serviços.

As próprias empresas chamam a si a tarefa de treinar esses profissionais, mesmo sabendo que correm risco de perdê-los para a concorrência, em face da demanda dessa mão de obra no mercado. Importar técnicos é às vezes a solução, e muitas empresas têm feito isso, aproveitando a recessão e o desemprego no mundo desenvolvido. Mas está claro que o interesse nacional requer que brasileiros, em número cada vez maior, sejam qualificados para ocupar essas vagas.

O governo não ignora essa deficiência, e escolas técnicas têm sido instaladas em várias regiões. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, as matrículas em escolas profissionalizantes atingiram 10% do total dos alunos de nível médio em 2009, o dobro de 2001 (5%), mas ainda assim uma quantidade insuficiente para atender às necessidades atuais do País e, principalmente, do futuro.

Os resultados WorldSkills International dissipam qualquer dúvida sobre a importância fundamental do Sistema S nesse quadro. O Senai não só capacita seus alunos, mas seleciona os melhores para representar o País. Ao brilharem no exterior, eles servem de exemplo no plano interno.


Os brasileiros brilharam, mais uma vez
José Pastore*

A imprensa deu pouca atenção aos jovens brasileiros que, no início de outubro, disputaram o mais difícil torneio mundial de qualificação profissional, realizado em Londres - o "WorldSkills", que reuniu 944 competidores de 51 países das mais diversas profissões. Pois bem. Pela segunda vez, os 28 estudantes brasileiros do Senai conquistaramoprestigioso2.º lugar,ficando atrás apenas da Coreia do Sul, e na frente do Japão, Suíça, Alemanha, França, Estados Unidos e muitos outros super desenvolvidos.

Os brasileiros obtiveram oito medalhas de ouro nos campos do desenho mecânico, eletrônica industrial, mecânica de refrigeração, mecatrônica, joalheria e web design e ganharam três medalhas de prata em polimecânica, design gráfico e tecnologia da informação. Além disso, conquistaram várias medalhas de bronze e certificados de excelência, o que os coloca entre os jovens mais bem preparados do mundo. Essa é uma notícia maravilhosa e que merece ser mais divulgada. A necessidade da boa formação profissional é mundialmente reconhecida. Passou o tempo em que as famílias rejeitavam essas profissões por serem de "mãos sujas".

Numa pesquisa feita em junho de 2011 na União Europeia, 71% dos entrevistados indicaram que as escolas profissionais desfrutam de uma imagem altamente positiva. Cerca de 80% consideram o ensino técnico como absolutamente necessário para as empresas e para as pessoas que, com ele, passam a ter melhores oportunidades de trabalho. A maioria discorda frontalmente de que as profissões técnicas sejam menos apreciadas pela sociedade (Attitudes towards vocational education and training, European Commision, 2011).

No Brasil, igualmente, as famílias disputam freneticamente as matrículas nas boas escolas profissionais,em especial as do Senai.Cada vez mais os prefeitos e as lideranças locais pressionam os empresários para ampliarem as vagas naquelas instituições.

Felizmente, as oportunidades de ensino neste campo começam a aumentar. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, em 2001 as matrículas no ciclo profissional representavam apenas 5% do total de alunos no ensino médio regular. Em 2009 essa proporção passou para 10%. Ainda é pouco, mas já é um avanço.

Os que passam pelas escolas profissionais se empregam mais facilmente e têm renda 20% superior aos que fizeram o ensino médio regular. Para os que cursaram as boas escolas técnicas, a diferença é muito maior. São profissionais disputadíssimos. Tomei conhecimento de um empresário que está construindo uma refinaria de petróleo no Nordeste. Seu maior desespero no momento é constatar que, todos os meses, a empresa contratante lhe "rouba" 50% dos seus melhores funcionários, desde mecânicos, soldadores e eletricistas até projetistas, gestores e mestres de obras.

Essa pilhagem está em toda parte.

As redes de hotéis, por exemplo, só conseguem pessoal qualificado quando os tiram de outras - um alerta aos organizadores dos eventos esportivos de 2014 e de 2016. Nas montadoras de veículos, os técnicos aposentados estão de volta ao trabalho. No setor de óleo e gás, as empresas estrangeiras que chegam ao Brasil fazem de tudo para seduzir os técnicos que a duras penas foram formados pela Petrobrás. Muitas firmas já buscam candidatos nos bancos das universidades ou das escolas técnicas, e as grandes mantêm suas próprias unidades de ensino.

A competição por talentos bem preparados está se transformando numa verdadeira guerra. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois terços das indústrias brasileiras estão com dificuldades para preencher os cargos disponíveis. Por tudo isso, os resultados que indicam a boa qualidade do ensino do Senai e a expansão do ensino profissional merecem ser comemorados. O Brasil descobriu o caminho das pedras: educar mais e melhor.

*Professor da FEA-USP, membro da Academia Paulista de Letras, é presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio de São Paulo. Site: www.josepastore.com.br

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