quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Diga não às Drogas: "Vendi até o meu cachorro para comprar crak", diz ex-usuário

Roberto Silva (*) tem 29 anos. Com pouco mais de dez anos, a curiosidade e os amigos o levaram a fumar o primeiro cigarro. O cigarro ganhou o acompanhamento da cerveja. Mas logo a cerveja não embriagava mais e vieram o conhaque e o uísque. A pouca maturidade e a falta de instrução em casa o fez fumar a maconha pela primeira vez aos 14 anos.

“Do vício do álcool para as drogas ilícitas é um pulo”, conta Roberto. A droga, denominada como ‘o desconhecido’ pelo ex-usuário, vai sendo desvendada à medida que perde a graça para o dependente químico. Da maconha, Roberto passou para a cocaína e da cocaína para a mais avassaladora droga da atualidade, o crack. “O crack acabou comigo em três meses. Perdi tudo. Vendi minha casa, e pasmem, vendi até o meu cachorro para comprar drogas”.

Roberto contou sua história para cerca de 50 alunos do Senai do Distrito Federal, na última sexta (5/8), no centro de recuperação de dependentes químicos Filho Pródigo, localizado em Planaltina. Os estudantes das unidades de Taguatinga e do Centro de Tecnologia da Informação, de Brasília, estiveram no local – paupérrimo – para entregar alimentos não-perecíveis e produtos de higiene pessoal arrecadados em gincana realizada pelo Senai. A casa foi escolhida para a doação, em virtude de o tema transversal tratado dentro das salas de aula neste ano é “Diga não às Drogas”.

“É fundamental que os jovens falem sobre as drogas e conheçam o mal que elas causam não só no dependente como em toda sua família", explica a técnica em Educação do Senai-DF Ana Luzia Brito. "Ver 'in loco' e ouvir os testemunhos dos dependentes em recuperação certamente fará os alunos refletirem acerca do tema e tenham coragem de dizer não a uma copo de bebida, por exemplo."

Os vários testemunhos dados aos estudantes têm muito em comum. O começo com drogas lícitas; a curiosidade que parte de uma brincadeira ou da insistência de adolescentes; a dependência que faz o usuário buscar drogas cada vez mais pesadas; o roubo; as inúmeras detenções; a devastação da pessoa e da sua família; o fundo do poço.

Fernando Tavares (*) tem apenas 17 anos e só foi levado à casa de recuperação pelos familiares porque está ameaçado de morte. “Meu pai está preso, minha irmã é traficante e tem gente querendo me matar pelas dívidas que contraídas pelo vício. Faz nove meses que não coloco nenhuma droga na boca, quero me refazer como pessoa, voltar a estudar e ser alguém na vida”, assegura o adolescente. Perguntado pelos seus sonhos, respondeu: “sonho em reconquistar o respeito da minha mãe e ter uma família."

Os estudantes aproveitaram os depoimentos para fazer perguntas e levantar dúvidas acerca do tema. Muitos queriam saber como identificar uma pessoa que está mexendo com drogas; como se dá a transição das drogas lícitas para as ilícitas; como eles foram parar na casa de recuperação.

Segundo Maicom Nelson Antunes, de 20 anos, aluno do curso técnico Administração, do Senai de Brasília, valeu a pena ir de porta em porta, entrar em ônibus pedindo doações, conseguir a colaboração de mercados para arrecadar os alimentos. “Perdemos a vergonha para pedir as doações em muitos lugares. Mas quem ganhou fomos nós, ao podermos ouvir tantos testemunhos de superação." Maicom falou ainda que o maior aprendizado é andar com as pessoas certas. “Isso é essencial para a sobrevivência."

O presidente da casa de recuperação, Vardelar Francisco Luiz, disse que as doações são mais que bem-vindas, são necessárias para a recuperação dos internos. “Vivemos de doações, já que não cobramos um real pela internação deles. Quando a comida acaba, não tem outra maneira a não ser levar os rapazes às ruas para arrecadar alimentos. Assim, colocamos em risco a recuperação deles, uma vez que muitos deles encontram novamente a bebida, o cigarro e até com as drogas."

As duas toneladas de alimentos e os produtos de higiene pessoal arrecadados nas três unidades do Senai-DF foram divididas também pelo Centro de Recuperação Ressuscita Cristo, de Taguatinga, em encontro promovido na quinta (4/8).
(*) Os nomes citados na matéria são fictícios. Muitos internos estão ameaçados de morte por traficantes e não podem ser identificados.
Reportagem de Susana Leite, da Assessoria de Comunicação do Sistema Fibra.

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