segunda-feira, 30 de maio de 2011

Educação de qualidade: Painel sobre Arranjo Educativo discute novos espaços de aprendizagem

Uma roda de conversa sobre Arranjos Educativos Locais reuniu recentemente, em Curitiba, educadores de renome no Brasil: o antropólogo, educador popular e folclorista, Tião Rocha; o educador e mentor da Escola da Ponte, de Portugal, José Pacheco; a arquiteta, educadora e consultora do programa Mais Educação do governo federal, Ana Beatriz Goulart; o publicitário e responsável pela área de responsabilidade socioambiental da Vivo, Luiz Fernando Guggenber, e o especialista em tecnologias de educação e comunicação, Nilton Lessa.

Na pauta, experiências em projetos educacionais inovadores desenvolvidos fora do ambiente escolar tradicional e envolvendo a participação ativa da comunidade. O painel teve a intermediação o diretor superintendente do Sesi do Paraná, José Antônio Fares, e a participação do diretor regional do Senai-PR, João Barreto. Um dos principais pontos do debate foi o projeto que essas duas organizações aplicam em Campo Largo e em Curitiba, desde 2009.

Os educadores da roda de conversas, compõem o Conselho de Especialistas deste Arranjo Educativo Local, outros especialistas e a equipe do Sesi avaliaram o andamento do projeto e definiram novos caminhos e ações. “Nossa entidade vem buscando criar condições para que o processo de educação seja permanente, com geração de conhecimento de todas as formas e modalidades”, disse Fares, ao abrir a roda de conversa.

Ele explicou que o projeto de Arranjo Educativo desenvolvido pela entidade, articula a participação da sociedade na busca do conhecimento contínuo, por meio das empresas, do poder público, entidades do terceiro setor e lideranças da própria comunidade. “Estamos baseados nas dimensões da Unesco, de educação transformadora, do conhecimento contínuo e compartilhado”, explicou.

Ana Beatriz Goulart abordou projetos voltados à educação e pesquisa, em especial sobre como a criança constrói a imagem de cidade na escola. “No modelo tradicional da escola, é como tivesse um mataburro no portão, que impede que a cultura da cidade entre. No futuro, a busca será por espaços onde a criança possa brincar, pensar, criar e trocar idéias”, disse ela. “É preciso juntar as pessoas na escola, dentro e fora dela.”

Para Nilton Lessa, houve, há tempo, uma cisão malévola entre o espaço do fazer e o espaço do aprender. “É possível produzir coisas e fazer a transmissão do conhecimento, com o convívio da liberdade, fraternidade e respeito. Não pode haver cidade educadora sem que os espaços propiciem compartilhamento de conhecimento.” Lessa afirmou ver no conceito de Arranjo Educativo uma tentativa de dar solução a esse dilema, resgatando, na prática, e não apenas no discurso, o conceito grego de cidades como espaço de convívio e aprendizagem.   

José Pacheco falou sobre a Escola da Ponte, idealizada e implantada por ele, que se notabilizou pelo projeto educativo inovador, baseado na autonomia dos estudantes, na liberdade e na fraternidade. “Acredito que a escola não muda a sociedade, mas com a sociedade”, disse ele. “Não concordo que a escola deva desaparecer. É preciso agir na escola e transformá-la.”

Uma alternativa pedagógica que cria espaços de aprendizagem em locais inusitados foi o foco da fala de Tião Rocha, que deixou a carreira de professor universitário para se dedicar à educação inovadora. “Partimos da pergunta se era possível fazer educação sem escola, no sentido físico. Já que a lógica era que você só podia fazer educação se houvesse escola e se era possível fazer uma escola embaixo de um pé de manga”.

“A experiência teve êxito, já foi avaliada, testada e recomendada internacionalmente como modelo de educação porque se descobriu o óbvio: para fazer educação de qualidade, você só precisa de gente de qualidade”, explicou Rocha. “São as pessoas que fazem a educação. O espaço físico é importante, sim, mas não significa que não se possa fazer boa educação sem ele”.

O projeto de Rocha, que começou em Curvelo, em Minas Gerais, no Espírito Santo, na Bahia, no Maranhão e em Moçambique, na África. “Tudo é discutido e avaliado em roda. Na roda, giram todos os processos de aprendizagem”.

Fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), uma organização governamental que promove a educação popular e o desenvolvimento comunitário a partir da cultura, Tião Rocha diz que é possível à comunidade ter autonomia. “Toda experiência que adquiri com o CPCD mostra que quanto maior for o entendimento da comunidade de que ela pode caminhar com as próprias pernas, maior o processo de empoderamento no qual os indivíduos tomam consciência de sua competência para produzir, criar e administrar”, explica.

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