sexta-feira, 15 de abril de 2011

Educação de excelência: Escola dos EUA reverter quadro negativo no aprendizado

Quando um aluno vai ao campo de futebol, ele pode jogar, mas também pode ser desafiado a fazer uma redação explicando como dar um chute. Essa foi uma das estratégias destacas pelo professor Matthew Crowley ao explicar como a Brockton High School, da rede municipal de Brockton, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, reverteu em uma década o desempenho extremamente negativo no Massachusetts Comprehensive Assessment System (MCAS), o Enem local.

"Escrever é pensar", afirmou o Crowley, que também é diretor-assistente da escola. Ele usou o exemplo do futebol para mostrar a gestores e coordenadores do ensino médio do Senai de Santa Catarina que a Brockton investiu na leitura, na expressão oral e escrita, no desenvolvimento do raciocínio lógico, na atenção especial a cada aluno e na motivação.

Em 1998, logo que o MCAS foi criado, 75% dos alunos foram reprovados em matemática e 44%, em inglês, contra índices de proficiência de 7% e 22%, respectivamente. Em 2010, os indicadores se inverteram: o percentual de reprovação caiu para 14% em matemática e para 5%, em inglês, enquanto os índices de proficiência se elevaram para 61% na matemática e 74% no inglês.

"Mas ainda não estamos satisfeitos", avisa o diretor. A escola atende um público com carência social. Dos cerca de 4,3 mil alunos, 70% estão abaixo do nível de pobreza, 73% pertencem a minorias étnicas e 50% falam outro idioma em casa. Os desafios da mudança foram maiores também pelo tamanho da escola, que abriga seus alunos em sete prédios e possui mais de 300 professores.

O sucesso motivou o Senai-SC a promover um workshop para compreender como o resultado foi alcançado e quais as práticas podem ser adaptadas nos seus cursos. "Este workshop integra o programa Educação em Movimento, com o qual pretendemos ampliar a qualidade dos nossos cursos e contribuir para a melhoria do padrão de ensino no Brasil e no estado", explica o diretor regional do Senai-SC, Sérgio Roberto Arruda.

Acompanhado da diretora do Departamento Bilíngue, Anna Carreiro, Crowley explicou que ao receber os resultados do primeiro exame, os gestores da Brockton ficaram estarrecidos e perceberam o grau de dificuldade que teriam que enfrentar. "Tínhamos o melhor time de futebol americano do estado, mas corríamos o risco de ver um número muito elevado de estudantes impedidos de receber o diploma", explicou o professor.

Matthew Crowle e Anna Carreiro no workshop – Foto Ivonei Fazzioni
Matthew Crowle e Anna Carreiro no workshop – Foto Ivonei Fazzioni

A primeira estratégia dos gestores foi colocar em suas salas as fotos dos estudantes que apresentavam os piores desempenhos. A prática continuou por muito tempo e, se preciso é retomada. "Quando se fala em números e estatísticas, às vezes esquecemos que elas se referem a pessoas reais", explica Anna. Era uma forma de relembrar continuamente que o fracasso da escola tinha faces e rostos.

Como outra iniciativa de sucesso, a escola estabeleceu uma carga de cinco aulas de 66 minutos por dia, contra um pouco mais de meia hora. Além disso, em nome da consistência de ensino, as disciplinas de matemática, inglês e ciências passaram a ser ministradas em todos os dias letivos. As atividades em tempo integral, com oficinas no período oposto do das aulas, realizadas antes de 1998 foram mantidas.

Crowley e Anna também ressaltaram que a escola passou a adotar novo comportamento na relação professor e aluno. "Até então, os professores não tinham voz – as reuniões eram para discutir temas específicos – nem se comunicavam entre si, ficavam isolados em suas salas", disse o diretor. E a virada começou exatamente pelos professores. Liderados por Suzan Szachowicz, hoje diretora-geral da instituição, seis professores compuseram o comitê de reestruturação, que continua existindo e hoje é composto por 30 docentes, que se reúnem numa manhã de sábado por mês.

Até receber a notícia do baixo desempenho, a escola de Brockton aceitava como normal que os alunos tivessem o "direito de ser reprovado". Segundo Crowley, essa possibilidade permitia que os alunos relaxassem. "Hoje entendemos que ninguém tem esse direito, e obrigação da escola é impedir que isso ocorra. Não há aluno sem prestar atenção: se a aula está tediosa, o professor precisa atrair a atenção dos estudantes".

Os professores, que hoje caminham pela escola nos intervalos, fazem um monitoramento geral dos estudantes. "Exigimos que todos os estudantes usem crachás e eles somente são autorizados a deixar a sala de aula com autorização escrita do docente para ir à secretaria ou á enfermaria, etc.", afirma Anna Carreiro.

"Os outros docentes ficam atentos no corredor, monitorando, acompanhando e abordam os estudantes que estejam fora da sala. É um trabalho um tanto policial, mas a abordagem é numa boa", revela a professora, que é filha de portugueses, especialista em língua e cultura portuguesa e em estudos brasileiros e portugueses e fala com fluência a língua portuguesa com o sotaque brasileiro.

Em seu relacionamento com os pais dos alunos, a escola apresenta uma nova forma, pois grande parte deles nem fala o inglês: cidade é povoada de imigrantes hispânicos e da Ilha do Cabo Verde. "As pessoas das famílias oriundas de Cabo Verde quando são alfabetizadas falam o português, caso contrário, falam o dialeto crioulo", explica Anna.

"Se os pais não comparecem às reuniões, não é porque não se interessam pelos filhos, mas é por que às vezes têm vários empregos", salienta o diretor substituto. "Por isso, adotamos estratégias como gravar mensagens telefônicas nas línguas nativas dos pais para a comunicação e para, caso necessário, solicitar que se dirijam ao colégio", acrescenta Crowley.

Os diretores da escola norte-americana asseguram que a grande revolução não teve financeiro. "Não se trata de verba; não custa nada mudar as expectativas, mas exige muito trabalho, esforço e reuniões difíceis", destaca Crowley. Ele observa que a cidade de Brockton investe 12 mil dólares por ano com cada estudante, metade do que é investido pela cidade de Cambridge, do mesmo estado e sede da Universidade de Harvard.

No entanto, na avaliação do exame de avaliação dos alunos do ensino médio, os estudantes de Brockton obtiveram uma média ponderada de 88 pontos, ante 87,5 dos de Cambridge. Porém, a falta de recursos atrapalha a Brockton High School na contratação de professores, já que a cidade de Boston, a 50 quilômetros, paga em média 10 mil dólares a mais por ano.

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