quarta-feira, 16 de março de 2011

Escolas precisam compreender as novas gerações, diz filósofo

Não há um único modo de fazer educação e as organizações de ensino precisam se renovar continuamente, eliminando o que é arcaico, mas mantendo o que pode ser considerado tradição. A explicação é do professor Mário Sérgio Cortella (foto), ao falar aos diretores de unidades operacionais do Senai de Santa Catarina, na abertura do Ciclo de Palestras sobre Planejamento Estratégico, na terça (15/3), no Centro de Eventos do Sistema Fiesc, em Florianópolis. "Humildade pedagógica é uma virtude essencial para a nossa prática", afirmou o professor de filosofia, mestre e doutor em educação e ex-secretário municipal de educação de São Paulo.
 
Ivonei Fazzioni

Cortella observa que "estamos num mundo de absoluta velocidade de transmissão da informação". No entanto, acrescenta que a internet não necessariamente lida com o conhecimento, ela pode ser muito superficial. "Uma parte das pessoas navega e uma parte naufraga na internet", brincou. Para ele, informação é acumulo, conhecimento é seleção. "Soterrar as pessoas de informação não é transmitir conhecimento, assim como comer bem não é comer muito."

As escolas precisam compreender as novas gerações, assim como defende que os professores ouçam as músicas que seus alunos estão ouvindo. "Os estudantes que chegam à universidade não viram o filme ET, o Ayrton Senna, não lembram de Guga Kuerten, nem sabem quem foi Collor de Mello. Eles não fazem ideia do que foram a Guerra Fria, a União Soviética e o Muro de Berlim. Para essa geração, a China tem um significado diferente do que há alguns anos", afirmou.

"Uma criança que chega à escola com cinco ou seis anos para ser alfabetizado formalmente já tem uma bagagem de cinco mil horas de televisão", ressalta Cortella, acrescentando que "o mundo que vamos deixar para os filhos depende dos filhos que vamos deixar para o mundo".

Em relação à qualidade da educação brasileira, o filósofo cita alguns mitos que estão disseminados. O primeiro é a "falsa oposição entre escolas públicas e privadas". Cortella afirma que a oposição deveria ser estabelecida entre escola boa e escola ruim, que coexistem nas duas esferas. Além disso, observa, o ensino praticamente privado é irrelevante do ponto de vista estatístico, pois representa 13% das matrículas.
O outro mito é o da qualidade versus quantidade. Cortella entende que no caso de educação, não pode existir qualidade educacional apenas para alguns setores da população. Ou seja, a quantidade é uma forma de qualidade.

Mário Sérgio Cortella analisa a educação brasileira nem com uma visão catastrofista nem triunfalista. Houve uma extensão significativa do ensino fundamental na matrícula obrigatória dos 7 a 14 anos, resultando em índices de 98% de matriculados, o que considera "uma cobertura fantástica".

Lembra ainda o aumento de alunos frequentando os ensinos médio e superior e a redução do analfabetismo entre adultos. Por outro lado, ainda persistem sérios problemas de qualidade. O educador aponta a forte urbanização que o país viveu nos últimos 40 anos. "Antes somente 40% da população vivia nas cidades e hoje a situação se inverteu". Essa migração levou a uma explosão de demanda por serviços de educação, saúde e saneamento. "Os investimentos nessas áreas não acompanharam o crescimento da população urbana."

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